(Os nomes, datas e mesmo a história foram inventados por mim)Era uma vez o mundo normal em que existem pessoas, neste caso um bebé, que veio ao mundo às 4 horas e 40 minutos da manhã do dia 1 de Setembro [1] em 1993. Para alguns foi uma tremenda felicidade, mas, para outros aquele bebé era o desgosto, o ódio.
Este bebé foi crescendo no meio de amor e sorrisos. Era um bebé tão meigo e aos olhos da mãe era tão frágil.
Deram-lhe o nome de Mariana.
Mariana cresceu e tornou-se numa criança viva, tudo à sua volta era felicidade, tudo lhe parecia o arco-íris!
Sempre com o seu lado rebelde, Mariana era feliz e aprendeu que o Mundo era dela e que era ela que mandava nele.
Vivia numa casa ao pé do mar, onde a tranquilidade pairava sobre ela. A praia, o sol, as flores enchiam os seus olhos de alegria.
Era a típica “Maria-Rapaz” que brincava com carrinhos, saltava às árvores e corria sem parar. Adorava aquela liberdade que lhe subia pelo corpo, aquela adrenalina que lhe punha os cabelos em pé. Era um mundo encantador.
Ela via os rapazes como os melhores amigos, com quem podia conversar e brincar.
Só que um dia, o sorriso encantador de Mariana desapareceu e as pessoas começaram a assistir ao seu lado rebelde. A sua vida dividira-se completamente, as nuvens do céu ficaram negras e as flores murcharam.
Ela era tão pequenininha, e de repente viu-se obrigada a entrar no mundo dos crescidos.
Mariana não queria. Mariana gostava de ser criança, de brincar nas caixas de areia e de imaginar o seu príncipe encantado.
Agora, nada disto fazia sentido. Tinha apenas oito anos e não conseguia sorrir. Porquê? Ela sabia o porquê, mas os outros não e achavam-na uma criança fútil. Ninguém a percebia, nem sequer tentavam percebê-la.
Era uma criança tão pequenininha que não teve coragem, não teve coragem para contar o que lhe tinha acontecido.
Então, uma simples criança de apenas oito anos decidiu lutar sozinha contra aquela dor, aquele sofrimento e seguir um caminho em busca da felicidade.
Mariana tinha sido violada.
Foi numa tarde em que as nuvens tapavam o sol e se derramavam em lágrimas.
Bateram à porta e Mariana abrira depois de perguntar quem era. Era o seu vizinho que costumava brincar com ela, aparecera lá com os bonecos do Dragon Ball, os desenhos animados preferidos dos dois, para ambos brincarem.
Num acto tão simples, tão inocente, o pesadelo ia começar.
O vizinho era alguns anos mais velho que Mariana e começara por lhe dar uma festa no cabelo.
Ela nem se tinha apercebido, pois era um simples inocente que queria brincar.
Ele agarrou-a e pôs a mão nas suas calças, Mariana começou a sentir-se esquisita. Não sabia o que era aquilo, mas tinha percebido que era algo extremamente mau. Por instinto, começara a gritar. Estavam sozinhos em casa e os vizinhos eram escassos.
O vizinho deu-lhe uma estalada, nesse momento ela começara a sentir uma enorme raiva e fez de tudo para que ele a largasse.
Mas os olhos dele ferviam de ódio e prazer. Beijou-a violentamente e despiu-a. Mariana começou a chorar sem se aperceber.
Mariana foi obrigada a dar-lhe prazer sem saber o que isso era. O rapaz colocou o pénis dentro da boca dela e enfiou os seus dedos na vagina, era uma sensação estúpida.
A seguir penetrou-a de forma rude e no fim só disse: “Não correu sangue, sua vaca”.
Bateu-lhe de forma hipócrita e abalou, deixando Mariana numa dor física e psicológica.
Mariana sentia necessidade de tomar banho, tomou uma, duas, três vezes. Sentia-se nojenta.
Vestiu-se e saiu de casa, foi até ao cemitério. Não percebia porquê, mas algo a chamava para lá. Debruçou-se por cima da campa do avô e começara a chorar.
Ela não conhecera o avô, este morreu quando ela tinha apenas um ano de idade, mas desde sempre sentira algo especial por ele.
E pela primeira vez na vida, ela sentia o desejo de estar morta juntamente com ele.
Uma luz surgiu na palma das suas mãos e todos os pensamentos que tinha, naquele momento, desapareceram. O mundo tornou-se só ela e aquela luz. Sentia-se tranquila como se nada tivesse acontecido.
Então, voltou para casa e fez um desenho. Um desenho colorido e alegre. Naquele momento tinha decidido que ia esquecer tudo e que aquela dor ia passar.
A mãe chegara a casa e Mariana dera-lhe um enorme beijo e partilhou um sorriso encantador.
A vida de Mariana seguiu em frente.
O tempo passou e a criança de oito anos tornou-se numa adolescente alegre, extrovertida e lutadora. Diferente de todas as outras raparigas devido à marca do passado.
Uma adolescente que já era capaz de perceber o que lhe tinha acontecido à uns anos atrás, mas mesmo assim não culpava ninguém por tal acto, era devido a esse passado que ela se tornou no que é.
E numa manhã fresca em que o sol espreitava pelo murro da escola, a vida dela mudou.
Mariana olhava o céu e, nos seus pensamentos, tentava chegar ao sol. À sua volta, ouvia falares de gente grande e de gente pequena, mas o bater das bolas de basquetebol no chão todas desnorteadas falava mais alto que tudo. Girou com o mundo, parou e olhou! Não olhou, simplesmente, por olhar, olhou com olhos de ver. Há quem diga que olhou com o coração! E naquela confusão, viu, não apenas um rapaz, mas sim, algo diferente, algo especial.
Lutou pelo tal rapaz, sentia que era o momento indicado para viver uma nova aventura.
Era o Bruno, uma rapaz de caracóis muito giro, infantil como todos os rapazes da sua idade, mas muito querido.
Num momento para sempre guardado na sua memória, Mariana agarrou a mão dele e colocou-lhe um papelinho com o número de telemóvel. A partir desse dia começaram a falar, cada vez mais e uma amizade forte foi crescendo entre eles. Ela gostava realmente dele.
O primeiro beijo deles foi engraçado, Bruno era tão tímido, que Mariana teve que avançar. Foi um momento tão fofo.
Começaram a namorar, a vida de Mariana virou ao contrário, cresceu tanto, mas tanto que chagava ás nuvens.
Ganhou uma intimidade com Bruno, que não conseguia explicar, um amor, uma amizade, um sentimento repleto de sorrisos.
Ele tornou-se confidente dela e vice-versa, era tudo tão perfeito. Mariana resolveu contar-lhe o que tinha acontecido com ela. Sentia receio, mas tudo correu bem. Bruno era meigo e compreensivo, nada mudou na relação e ele apoiou-a o mais que podia.
Mariana e Bruno passado alguns meses separaram-se, continuando amigos foram apoiando-se mutuamente.
Mais tarde, o mundo de Mariana começou a mudar, a colorida vida que tinha ia, aos poucos e poucos, transformando-se em preto e branco.
Tinha-se tornado num pesadelo, voltara tudo a acontecer doutra maneira.
Mariana não tinha sido violada, mas tinha sofrido uma tentativa de violação.
Mil e uma coisas lhe passaram pela cabeça, naquele momento sentia nojo dela própria, perguntava-se se era para aquilo que tinha nascido e só queria morrer.
Tentou matar-se.
Numa noite, em que se encontrava sozinha em casa tudo aconteceu. Sentia-se sem forças para nada.
Calmamente, pegou nos comprimidos que tinha escolhido, admirou-os e sentiu-se com coragem.
Tomou o primeiro comprimido e ao fim do segundo comprimido, o telemóvel tocara. Era o Bruno, tinha sido um sinal. Ele impediu-a de fazer tal acto de cobardia. O amor que ainda sentia por ele para alguma coisa tinha servido. Agarrou no terceiro comprimido e esmagou-o com toda a sua força.
Mariana sentia raiva de si própria.
E pensou: “Se uma criança de oito anos lutou sozinha porque é que eu irei desistir?”
Agora, Mariana sabe que há sempre um amanhã e que ela vale mais que qualquer sofrimento.
[1] Invasão da Polónia começou ás 4h40 da manhã com um ataque maçivo de Luftwaffe em vários alvos. (1 de Setembro de 1939) Princípio da Segunda Guerra Mundial.